Cannabis medicinal no autismo: o que dizem os estudos clínicos em 2025
O Transtorno do Espectro Autista (TEA) afeta cerca de 2 milhões de brasileiros, segundo estimativas do Ministério da Saúde, e é caracterizado por dificuldades na comunicação social, comportamentos repetitivos e, em muitos casos, comorbidades como ansiedade, epilepsia, distúrbios do sono e irritabilidade intensa.
Nos últimos anos, o CBD e outros canabinoides emergiram como uma das opções terapêuticas mais pesquisadas para o TEA, especialmente para sintomas que respondem mal aos tratamentos convencionais. Este artigo apresenta um panorama honesto das evidências disponíveis em 2025, incluindo estudos brasileiros.
Por que famílias buscam cannabis para o TEA?
A busca por cannabis medicinal por famílias de crianças com TEA geralmente ocorre após anos de tentativas frustradas com medicamentos convencionais — antipsicóticos, ansiolíticos e anticonvulsivantes — que frequentemente trazem efeitos colaterais significativos como ganho de peso, sedação excessiva e alterações metabólicas.
O CBD, em particular, chamou atenção por seu perfil de segurança favorável e pela ausência de efeitos psicoativos, tornando-o uma opção mais palatável para pais que buscam alternativas para seus filhos.
O que os estudos mostram
Melhora em comportamentos disruptivos e irritabilidade
Um estudo israelense publicado no Scientific Reports com 188 pacientes com TEA tratados com cannabis medicinal (rica em CBD) mostrou melhora significativa em comportamentos disruptivos (61% dos pacientes), ansiedade (39%) e comunicação (47%). Mais de 80% dos pais relataram melhora significativa ou moderada na avaliação global de seus filhos.
Redução da ansiedade e melhora do sono
Estudos brasileiros publicados em 2025, incluindo uma revisão integrativa na Residência Pediátrica e um estudo de acompanhamento clínico publicado na Revista Brasileira de Medicina de Família e Comunidade, confirmaram melhora em ansiedade, irritabilidade e qualidade do sono em crianças com TEA tratadas com óleo de cannabis full spectrum rico em CBD.
O estudo brasileiro com 5 crianças mostrou que todas apresentaram melhora clínica relevante, com redução de comportamentos autolesivos e melhora na interação social, sem efeitos adversos graves.
Controle de convulsões associadas ao TEA
Muitas crianças com TEA apresentam epilepsia comórbida. O CBD já tem eficácia bem estabelecida no controle de convulsões em síndromes epilépticas raras (Dravet e Lennox-Gastaut), e estudos sugerem que esse benefício se estende a crianças com TEA e epilepsia concomitante.
Segurança: o que os estudos mostram sobre efeitos adversos
A segurança do CBD em crianças com TEA tem sido um ponto positivo consistente nos estudos. Os efeitos colaterais relatados são, em sua maioria, leves e transitórios:
- Sonolência (o mais comum, geralmente resolvida com ajuste de dose)
- Alterações no apetite (aumento ou redução)
- Irritabilidade transitória no início do tratamento
- Diarreia (especialmente com óleos de alta concentração)
Efeitos graves foram raros nos estudos disponíveis. No entanto, é fundamental ressaltar que a maioria dos estudos tem duração limitada (3 a 12 meses), e os efeitos do uso prolongado em crianças ainda precisam de mais investigação.
O que ainda não sabemos: limitações das evidências
- Ausência de estudos controlados randomizados de grande escala: A maioria dos estudos disponíveis são observacionais ou têm amostras pequenas. Estudos de fase III com grupos controle são necessários para confirmar eficácia.
- Dosagem ideal não estabelecida: A dose terapêutica ideal de CBD para o TEA ainda não foi determinada por estudos clínicos robustos.
- Heterogeneidade do TEA: O espectro autista é extremamente diverso. Não está claro quais subtipos de TEA respondem melhor ao tratamento com cannabis.
- Efeitos de longo prazo: Os estudos disponíveis têm duração máxima de 1 a 2 anos. Os efeitos do uso prolongado no desenvolvimento neurológico infantil ainda são desconhecidos.
Orientações para famílias que consideram o tratamento
- Busque um médico especializado: O tratamento com cannabis para TEA deve ser prescrito e acompanhado por um médico — preferencialmente neuropediatra ou psiquiatra infantil — com experiência em cannabis medicinal.
- Não substitua tratamentos estabelecidos: A cannabis deve ser considerada como terapia complementar, não substituta de terapias comportamentais (ABA, TEACCH) e outros tratamentos com evidência estabelecida.
- Documente os efeitos: Mantenha um diário detalhado de comportamentos, sono e humor antes e após o início do tratamento para avaliar a resposta terapêutica de forma objetiva.
- Use produtos legalizados: Adquira apenas produtos com registro ou autorização da Anvisa, de empresas idôneas. Produtos sem procedência podem ter concentrações imprecisas ou contaminantes.
Conclusão
As evidências disponíveis em 2025 sugerem que a cannabis medicinal — especialmente o CBD — pode ser uma opção terapêutica complementar valiosa para alguns sintomas do TEA, como irritabilidade, ansiedade, distúrbios do sono e comportamentos disruptivos. O perfil de segurança é favorável, especialmente em comparação com antipsicóticos convencionais.
No entanto, as evidências ainda não são suficientes para recomendações clínicas amplas. Estudos de maior escala e longa duração são necessários. Para famílias que consideram o tratamento, a orientação médica especializada é indispensável.
Referências
- Barchel D, et al. Oral Cannabidiol Use in Children With Autism Spectrum Disorder to Treat Related Symptoms and Co-morbidities. Frontiers in Pharmacology, 2019.
- Sousa AGT, et al. Uso do Canabidiol nos Sinais e Comorbidades em Crianças com TEA. Psicologia Escolar e Educacional, 2025.
- Medeiros AB, et al. Acompanhamento Clínico de Cinco Crianças com TEA em Uso de Cannabis Full Spectrum. Revista Brasileira de Medicina de Família e Comunidade, 2025.
- UFSC LabioEx. Cannabis Medicinal no Autismo: O que Dizem os Estudos Clínicos. abril 2025.
- Residência Pediátrica. Eficácia e Segurança do Uso da Cannabis Medicinal no TEA: Uma Revisão Integrativa. 2025.