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Cannabis Medicinal e Epilepsia Refratária: Da História de Charlotte Figi às Evidências Científicas

13 min de leitura Benefícios Terapêuticos
Cannabis Medicinal e Epilepsia Refratária: Da História de Charlotte Figi às Evidências Científicas

A epilepsia refratária é a indicação com o maior nível de evidência científica para o CBD — a única para a qual existe um medicamento aprovado pelo FDA e pela Anvisa. Conheça os ensaios clínicos pivotais, os estudos de caso reais e o que a regulamentação brasileira permite hoje.

Uma Menina, 300 Crises por Semana e uma Planta que Mudou a História

Em 2013, uma reportagem da CNN apresentou ao mundo Charlotte Figi, uma menina de 5 anos do Colorado, Estados Unidos, diagnosticada com a Síndrome de Dravet — uma das formas mais graves e raras de epilepsia infantil. Charlotte chegou a ter 300 crises convulsivas por semana, muitas delas com duração superior a 30 minutos. Ela havia tentado sete medicamentos antiepilépticos diferentes sem sucesso. Estava em cadeira de rodas, havia perdido a capacidade de falar e de andar, e seus médicos não tinham mais opções a oferecer.

Em desespero, os pais de Charlotte, Matt e Paige Figi, entraram em contato com os irmãos Stanley, produtores de cannabis no Colorado, que haviam desenvolvido uma variedade com alto teor de CBD e baixíssimo teor de THC. Após a primeira dose do óleo de CBD, Charlotte ficou sete dias sem nenhuma crise. Com o tratamento contínuo, as crises caíram para aproximadamente duas ou três por mês — uma redução de mais de 99%.

A variedade de cannabis usada no tratamento de Charlotte foi batizada de Charlotte's Web em sua homenagem. Sua história, documentada pelo neurologista Ethan Maa e publicada na revista Epilepsia em 2014 com 411 citações, desencadeou uma onda de interesse científico e regulatório no CBD para epilepsia que culminaria, quatro anos depois, na primeira aprovação do FDA para um medicamento derivado da cannabis.

Charlotte Figi faleceu em abril de 2020, aos 13 anos, vítima de complicações respiratórias possivelmente relacionadas à COVID-19. Mas seu legado transformou permanentemente a medicina: ela foi a catalisadora de um dos capítulos mais importantes da história da neurologia moderna.

O que é Epilepsia Refratária e por que ela é tão Devastadora?

A epilepsia afeta aproximadamente 50 milhões de pessoas no mundo, sendo a doença neurológica crônica mais prevalente depois da enxaqueca. No Brasil, estima-se que 3,4 milhões de pessoas vivam com epilepsia, segundo dados do Ministério da Saúde. Para a maioria delas — cerca de 60 a 70% — o controle adequado das crises é possível com um ou dois medicamentos antiepilépticos.

Mas para os outros 30 a 40%, a realidade é muito diferente. A epilepsia refratária — também chamada de epilepsia farmacorresistente — é definida pela Liga Internacional contra a Epilepsia (ILAE) como a falha em obter controle sustentado das crises após o uso adequado de dois ou mais medicamentos antiepilépticos tolerados, em doses apropriadas e em monoterapia ou em combinação. Essa definição abrange aproximadamente 15 a 20 milhões de pessoas no mundo.

As consequências da epilepsia refratária vão muito além das crises em si. Crianças com epilepsia refratária frequentemente apresentam atraso no desenvolvimento neuropsicomotor, dificuldades de aprendizado, transtornos do espectro autista associados, problemas de comportamento e qualidade de vida gravemente comprometida. O risco de morte súbita inexplicada na epilepsia (SUDEP — Sudden Unexpected Death in Epilepsy) é significativamente maior em pacientes com crises não controladas. Para as famílias, o impacto é igualmente devastador: cuidadores de crianças com epilepsia refratária apresentam taxas elevadas de depressão, ansiedade e burnout.

As síndromes epilépticas mais associadas à refratariedade incluem a Síndrome de Dravet (epilepsia mioclônica grave da infância, causada por mutações no gene SCN1A), a Síndrome de Lennox-Gastaut (SLG, uma encefalopatia epiléptica com múltiplos tipos de crises e deficiência intelectual) e a Esclerose Tuberosa Complexa (ETC, uma doença genética que causa tumores benignos em múltiplos órgãos e epilepsia em 80 a 90% dos casos). Essas três condições são exatamente aquelas para as quais o CBD tem o maior nível de evidência científica.

Os Ensaios Clínicos Pivotais: Como o CBD Provou sua Eficácia

A história de Charlotte Figi foi o gatilho emocional, mas foram os ensaios clínicos randomizados e controlados por placebo que transformaram o CBD de esperança anedótica em medicina baseada em evidências. Os três estudos pivotais que levaram à aprovação do Epidiolex (CBD farmacêutico purificado) pelo FDA em 2018 são referências obrigatórias na literatura neurológica.

Estudo GWPCARE1: Síndrome de Dravet (Devinsky et al., NEJM 2017)

O primeiro grande ensaio clínico randomizado com CBD para epilepsia refratária foi publicado no New England Journal of Medicine em maio de 2017 por Orrin Devinsky e colaboradores, com mais de 2.150 citações — tornando-se um dos artigos mais citados na história da neurologia pediátrica.

O estudo incluiu 120 pacientes com Síndrome de Dravet (com idades entre 2 e 18 anos) que continuavam tendo crises convulsivas apesar do uso de pelo menos dois medicamentos antiepilépticos. Os pacientes foram randomizados para receber CBD oral (20 mg/kg/dia) ou placebo por 14 semanas, em adição à terapia antiepiléptica em uso.

Os resultados foram expressivos: a mediana de redução na frequência de crises convulsivas foi de 38,9% no grupo CBD, comparada a apenas 13,3% no grupo placebo — uma diferença estatisticamente significativa (p=0,01). Mais impressionante ainda: 5% dos pacientes no grupo CBD ficaram completamente livres de crises durante o estudo, comparado a 0% no grupo placebo. A taxa de resposta (redução de pelo menos 50% nas crises) foi de 43% no grupo CBD versus 27% no grupo placebo.

Os efeitos adversos mais comuns foram sonolência, diarreia, fadiga e diminuição do apetite. Elevações das enzimas hepáticas foram observadas em alguns pacientes, especialmente naqueles em uso concomitante de valproato — uma interação farmacológica importante que requer monitoramento.

Estudo GWPCARE3 e GWPCARE4: Síndrome de Lennox-Gastaut (Devinsky et al., NEJM 2018)

Em maio de 2018, o mesmo grupo de pesquisadores publicou no NEJM os resultados do estudo GWPCARE3, com 1.191 citações, avaliando o CBD para a Síndrome de Lennox-Gastaut — considerada a forma mais grave de epilepsia da infância.

O estudo randomizou 225 pacientes com SLG para receber CBD em duas doses (10 mg/kg/dia ou 20 mg/kg/dia) ou placebo. O desfecho primário foi a redução nas crises de queda (drop seizures) — o tipo mais incapacitante e perigoso na SLG, que causa quedas súbitas e frequentes lesões físicas.

Os resultados mostraram redução mediana de 41,9% nas crises de queda com CBD 20 mg/kg/dia e de 37,2% com CBD 10 mg/kg/dia, comparado a 17,2% com placebo. A diferença foi estatisticamente significativa para ambas as doses (p<0,001 para a dose de 20 mg/kg e p=0,002 para a dose de 10 mg/kg). Além disso, 66% dos cuidadores dos pacientes no grupo CBD 20 mg/kg relataram melhora geral do estado do paciente, comparado a 44% no grupo placebo.

Estudo GWPCARE6: Esclerose Tuberosa Complexa (Thiele et al., JAMA Neurology 2021)

O terceiro ensaio pivotal, publicado no JAMA Neurology em 2021 por Elizabeth Thiele e colaboradores com 306 citações, avaliou o CBD para crises associadas à Esclerose Tuberosa Complexa — a terceira indicação aprovada pelo FDA para o Epidiolex.

O estudo incluiu 224 pacientes com ETC que continuavam tendo crises apesar do uso de múltiplos antiepilépticos. Os pacientes foram randomizados para CBD 25 mg/kg/dia, CBD 50 mg/kg/dia ou placebo por 16 semanas. Os resultados mostraram que ambas as doses de CBD foram significativamente superiores ao placebo na redução de crises associadas à ETC, com reduções medianas de 48,6% (25 mg/kg) e 47,5% (50 mg/kg) comparadas a 26,5% no grupo placebo (p<0,001 para ambas as doses).

Tabela: Resumo dos Três Ensaios Clínicos Pivotais do Epidiolex

Estudo Condição N Dose CBD Redução crises (CBD vs placebo) Publicação
GWPCARE1 (Devinsky 2017) Síndrome de Dravet 120 20 mg/kg/dia 38,9% vs 13,3% (p=0,01) NEJM, 2.150 cit.
GWPCARE3 (Devinsky 2018) Lennox-Gastaut (crises de queda) 225 10 ou 20 mg/kg/dia 41,9% vs 17,2% (p<0,001) NEJM, 1.191 cit.
GWPCARE6 (Thiele 2021) Esclerose Tuberosa Complexa 224 25 ou 50 mg/kg/dia 48,6% vs 26,5% (p<0,001) JAMA Neurology, 306 cit.

Estudos de Caso: Quando os Números se Tornam Pessoas

Os ensaios clínicos randomizados fornecem a prova estatística de eficácia, mas são os estudos de caso individuais que revelam o impacto humano real do tratamento com CBD. Dois casos ilustram bem a amplitude de resposta que pode ser observada na prática clínica.

Caso 1: Epilepsia Refratária com Atraso Global do Desenvolvimento (Brasil, 2025)

Um caso clínico documentado pela WeCann Academy em 2025 descreve uma paciente brasileira com epilepsia refratária, atraso global no desenvolvimento e Transtorno do Espectro Autista (TEA) associado. A paciente havia tentado múltiplos antiepilépticos sem controle adequado das crises, que incluíam crises hipomotoras, focais com comprometimento da consciência e crises generalizadas.

O tratamento com cannabis medicinal foi iniciado com CBD isolado em doses de 1 a 5 mg/kg/dia. Já nessa fase inicial, observou-se redução de aproximadamente 50% na frequência das crises, com melhora cognitiva significativa. Posteriormente, houve transição para extrato integral de CBD na proporção 20:1 (CBD:outros canabinoides), visando potencializar o efeito entourage.

O desfecho foi notável: após dois meses de tratamento com o extrato integral, a paciente atingiu controle total das crises — um objetivo que havia sido inatingível por anos. Além da remissão das crises, a família e a equipe terapêutica observaram melhora significativa na compreensão receptiva e expressiva, maior engajamento social, desenvolvimento de métodos alternativos de comunicação e participação mais ativa em atividades lúdicas. O caso ilustra como o controle das crises pode desencadear uma reorganização neurológica com impacto positivo em múltiplos domínios do desenvolvimento.

Caso 2: Charlotte Figi — O Caso que Mudou a História

O caso de Charlotte Figi, documentado por Ethan Maa na revista Epilepsia (2014, 411 citações), permanece o mais influente da história da cannabis medicinal para epilepsia. Charlotte tinha diagnóstico confirmado de Síndrome de Dravet com mutação no gene SCN1A, e chegou a ter 300 crises convulsivas por semana antes de iniciar o tratamento com o óleo de Charlotte's Web.

Com o tratamento, as crises caíram para 2 a 3 por mês — uma redução superior a 99%. Charlotte recuperou a capacidade de andar, falar e interagir socialmente. O caso foi documentado no especial da CNN "Weed" pelo Dr. Sanjay Gupta em agosto de 2013, gerando uma cobertura midiática sem precedentes que levou centenas de famílias de todo o mundo a buscar tratamento com CBD para seus filhos com epilepsia refratária.

O impacto regulatório foi igualmente significativo: o caso de Charlotte e de outras crianças com Síndrome de Dravet foi um dos fatores que motivou o FDA a conceder ao Epidiolex o status de Breakthrough Therapy (Terapia Inovadora) em 2014, acelerando seu desenvolvimento clínico e culminando na aprovação em junho de 2018 — a primeira aprovação do FDA para um medicamento derivado da planta Cannabis sativa.

Evidências de Longo Prazo: O que Acontece Após os Ensaios Clínicos?

Uma das limitações dos ensaios clínicos pivotais é sua duração relativamente curta (14 a 16 semanas). Mas estudos de extensão de longo prazo têm fornecido dados tranquilizadores sobre a sustentabilidade do efeito do CBD.

O estudo de Thiele et al. (2022), publicado no PubMed com 103 citações, acompanhou pacientes com Esclerose Tuberosa Complexa por 48 semanas em extensão aberta após o ensaio pivotal. Os resultados mostraram que o CBD foi bem tolerado e reduziu as crises de forma sustentada ao longo de todo o período de acompanhamento, sem evidência de perda de eficácia com o tempo.

O estudo de vida real de Georgieva et al. (2023), publicado na Epilepsy & Behavior com 42 citações, avaliou a retenção terapêutica do Epidiolex em pacientes com epilepsia refratária no mundo real. Os resultados mostraram que a maioria dos pacientes que iniciaram o tratamento continuou usando o medicamento após 12 meses, com taxas de retenção superiores às observadas com outros antiepilépticos de segunda e terceira linha — um indicador indireto de eficácia e tolerabilidade satisfatórias.

Como o CBD Age no Cérebro Epiléptico?

Ao contrário do THC, que produz seus efeitos principalmente através da ativação dos receptores CB1 do sistema endocanabinoide, o CBD tem mecanismos de ação antiepilépticos múltiplos e ainda não completamente elucidados. Essa complexidade farmacológica é, paradoxalmente, uma das razões pelas quais o CBD pode ser eficaz em formas de epilepsia que não respondem a medicamentos com mecanismos de ação únicos.

Os mecanismos antiepilépticos do CBD identificados até o momento incluem: a modulação negativa dos receptores CB1 (reduzindo a excitabilidade neuronal), a ativação dos receptores TRPV1 (canais de cálcio envolvidos na regulação da excitabilidade), a inibição dos canais de sódio voltagem-dependentes (mecanismo compartilhado com vários antiepilépticos convencionais), a modulação dos receptores de glicina (aumentando a inibição neuronal), e a inibição da recaptação de adenosina — um neuromodulador endógeno com potente ação anticonvulsivante.

Na Síndrome de Dravet especificamente, onde a mutação no gene SCN1A causa disfunção dos canais de sódio em interneurônios inibitórios (levando a hiperexcitabilidade neuronal), o CBD pode atuar compensando parcialmente essa disfunção através de múltiplos mecanismos complementares — o que pode explicar sua eficácia nessa condição específica.

O Acesso ao CBD para Epilepsia no Brasil: O que a Regulamentação Permite

O Brasil foi um dos primeiros países da América Latina a regulamentar o acesso ao CBD para epilepsia refratária. A trajetória regulatória brasileira passou por várias etapas importantes.

Em 2015, a Anvisa publicou a Resolução RDC 17/2015, que autorizou excepcionalmente a importação de produtos à base de canabidiol para uso individual, mediante prescrição médica e autorização prévia da agência. Essa resolução foi o resultado direto da pressão de famílias de crianças com epilepsia refratária que buscavam acesso ao CBD após tomar conhecimento dos casos como o de Charlotte Figi.

Em 2019, a Anvisa aprovou o registro do primeiro produto à base de CBD no Brasil — o Canabidiol Prati-Donaduzzi, indicado para epilepsias refratárias — tornando o Brasil o segundo país do mundo (após os EUA) a ter um produto de CBD com registro regulatório para essa indicação. Em 2020, a Anvisa publicou a RDC 327/2019, que estabeleceu um marco regulatório mais amplo para produtos de cannabis medicinal, incluindo a possibilidade de importação e manipulação de produtos com CBD e THC.

Em janeiro de 2026, a Anvisa aprovou novas regras para a produção nacional de cannabis medicinal, ampliando significativamente o acesso a medicamentos à base de cannabis para pacientes com prescrição médica — um passo importante para reduzir a dependência de importação e os custos elevados que ainda representam uma barreira de acesso para muitas famílias brasileiras.

Atualmente, o acesso ao CBD para epilepsia refratária no Brasil pode ser obtido por três vias principais: a compra do Canabidiol Prati-Donaduzzi em farmácias (com prescrição médica), a importação de produtos como o Epidiolex mediante autorização da Anvisa, ou a manipulação em farmácias autorizadas. Para crianças que não têm acesso financeiro ao tratamento, decisões judiciais têm garantido o fornecimento gratuito pelo SUS em casos de necessidade comprovada — como a decisão recente do MPF e MP/RO que garantiu o fornecimento de canabidiol a uma criança com epilepsia grave em Rondônia.

Quem Pode se Beneficiar e Quais são as Limitações?

O CBD para epilepsia não é uma solução universal. As evidências mais robustas se concentram em três condições específicas (Síndrome de Dravet, Síndrome de Lennox-Gastaut e Esclerose Tuberosa Complexa), e mesmo nessas condições, a resposta é variável: aproximadamente 40 a 50% dos pacientes respondem com redução de pelo menos 50% nas crises, enquanto 5 a 10% atingem remissão completa.

Para outras formas de epilepsia refratária — como a epilepsia focal criptogênica, a epilepsia mioclônica juvenil ou a epilepsia por outras encefalopatias genéticas — as evidências são menos robustas, embora estudos de vida real sugiram que o CBD pode ter efeito antiepiléptico mais amplo do que o inicialmente documentado nos ensaios pivotais.

As interações medicamentosas são um aspecto crítico do manejo clínico. O CBD inibe as enzimas CYP3A4 e CYP2C19, que metabolizam vários antiepilépticos comuns. A interação mais clinicamente relevante é com o clobazam: o CBD aumenta significativamente os níveis séricos do metabólito ativo do clobazam (N-desmetilclobazam), o que pode amplificar tanto o efeito antiepiléptico quanto os efeitos colaterais sedativos. A interação com o valproato pode causar elevação das enzimas hepáticas, exigindo monitoramento periódico da função hepática.


Este artigo tem caráter exclusivamente educativo e informativo. As informações aqui apresentadas não substituem a consulta com um neurologista especialista em epilepsia. O uso de CBD para epilepsia refratária deve ser sempre prescrito e monitorado por um médico habilitado, com ajuste individualizado de dose e acompanhamento das interações medicamentosas.