Cannabis para Crianças com Epilepsia: de Charlotte Figi ao Brasil
A história de Charlotte Figi impulsionou o uso de cannabis medicinal para epilepsia infantil. Este artigo explora a ciência, informações práticas e o acesso no Brasil, destacando avanços regulatórios e a esperança para famílias.

Introdução
A história de Charlotte Figi, uma menina americana que sofria de uma forma rara e grave de epilepsia, a Síndrome de Dravet, é um marco na discussão sobre o uso medicinal da cannabis. Suas centenas de convulsões semanais foram drasticamente reduzidas com o uso de um óleo rico em canabidiol (CBD), inspirando o nome da cepa de cannabis "Charlotte's Web" e impulsionando a pesquisa e a legalização da cannabis medicinal em todo o mundo. No Brasil, a realidade de famílias que buscam na cannabis medicinal uma esperança para seus filhos com epilepsia refratária tem ganhado cada vez mais visibilidade, impulsionada por avanços regulatórios e um crescente corpo de evidências científicas.
Por que isso importa
A epilepsia refratária em crianças, como a Síndrome de Dravet e a Síndrome de Lennox-Gastaut, representa um desafio significativo para a medicina. Muitos pacientes não respondem aos tratamentos convencionais, o que leva a uma busca por alternativas terapêuticas. O canabidiol (CBD), um dos principais canabinoides da planta cannabis, tem demonstrado um papel importante na redução da frequência e intensidade das crises epilépticas. Seu mecanismo de ação envolve a interação com o sistema endocanabinoide do corpo, que regula diversas funções fisiológicas, incluindo a atividade neuronal. Além do impacto biológico, o mercado e a regulamentação da cannabis medicinal no Brasil estão em constante evolução, refletindo a crescente demanda e o reconhecimento de seu potencial terapêutico.
O que a ciência diz
Estudos recentes e revisões sistemáticas têm corroborado a eficácia e segurança do canabidiol (CBD) no tratamento de epilepsias refratárias em crianças. Uma revisão sistemática publicada em 2023 [1] destacou que o CBD é eficaz na redução da frequência de crises epilépticas em pacientes pediátricos com epilepsia refratária, incluindo as síndromes de Dravet e Lennox-Gastaut. A pesquisa indicou uma redução na intensidade dos eventos convulsivos e na frequência das crises, além de permitir a diminuição do uso de outros medicamentos.
Especificamente para a Síndrome de Dravet, ensaios clínicos duplo-cegos demonstraram a eficácia do CBD em doses entre 10 e 20 mg/kg/dia, resultando em um maior controle das crises em comparação com o placebo. Para a Síndrome de Lennox-Gastaut, o CBD também se mostrou eficaz na redução das crises nas mesmas dosagens [1].
Outra revisão sistemática, publicada em 2025 [2], reforça que o canabidiol é geralmente bem tolerado e efetivamente reduz a frequência de crises em crianças com encefalopatias epilépticas e de desenvolvimento (DEEs) cujas crises são refratárias aos tratamentos convencionais. Os efeitos adversos foram, em sua maioria, leves a moderados e transitórios.
Um estudo de coorte retrospectivo de 2026 [3] avaliou a tolerabilidade, eficácia e segurança da terapia adjuvante com canabidiol em epilepsia pediátrica intratável, contribuindo para o crescente corpo de evidências que apoiam o uso do CBD nessa população.
Tabela: Eficácia do CBD em Síndromes Epilépticas Pediátricas
| Síndrome | Eficácia do CBD | Dosagem Típica | Observações |
|---|---|---|---|
| Síndrome de Dravet | Redução significativa na frequência e intensidade das crises | 10-20 mg/kg/dia | Melhor controle das crises em comparação com placebo em ensaios clínicos duplo-cegos. |
| Síndrome de Lennox-Gastaut | Redução eficaz das crises | 10-20 mg/kg/dia | Eficaz em diferentes apresentações da síndrome. |
| Encefalopatias Epilépticas e de Desenvolvimento (DEEs) | Redução da frequência de crises | Variável | Bem tolerado, com efeitos adversos leves a moderados e transitórios. |
Informações práticas
O uso de canabinoides, especialmente o CBD, no tratamento da epilepsia em crianças requer acompanhamento médico rigoroso. A dosagem é um fator crucial e deve ser individualizada, geralmente iniciando com doses baixas e aumentando gradualmente até que se atinja o efeito terapêutico desejado com o mínimo de efeitos adversos. Estudos indicam que doses entre 10 e 20 mg/kg/dia de CBD são comumente utilizadas e eficazes para síndromes como Dravet e Lennox-Gastaut [1].
Quanto ao formato, os produtos de cannabis medicinal para uso pediátrico são frequentemente administrados na forma de óleos ou extratos, que permitem uma dosagem precisa e são mais fáceis de administrar a crianças. As novas regulamentações da Anvisa no Brasil também ampliaram as formas de administração, incluindo uso dermatológico, sublingual, bucal e inalatório [4].
A segurança é uma preocupação primordial. Embora o CBD seja geralmente bem tolerado, efeitos adversos podem ocorrer, sendo os mais comuns sonolência, perda de apetite, irritabilidade, diarreia, perda de peso, náuseas, vômitos e insônia [2]. É fundamental que os pais e cuidadores estejam cientes desses possíveis efeitos e reportem qualquer alteração ao médico. A coadministração de CBD com outros medicamentos antiepilépticos, como clobazam ou valproato, requer monitoramento atento devido a possíveis interações [2].
É crucial evitar produtos de cannabis de origem duvidosa ou artesanais sem controle de qualidade, pois podem conter contaminantes ou ter concentrações imprecisas de canabinoides, o que comprometeria a segurança e a eficácia do tratamento. A orientação médica é indispensável para a escolha do produto adequado e a definição da dosagem correta.
Como acessar no Brasil
No Brasil, o acesso à cannabis medicinal para crianças com epilepsia refratária tem sido um caminho de avanços regulatórios significativos. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) desempenha um papel central nesse processo, com a publicação de resoluções que buscam regulamentar a produção, importação e uso de produtos à base de cannabis.
Recentemente, em fevereiro de 2026, a Anvisa publicou novas Resoluções da Diretoria Colegiada (RDCs) que regulamentam a produção de cannabis com fins medicinais no Brasil e atualizam o marco regulatório para a fabricação e importação de produtos de cannabis [4]. Entre os pontos mais relevantes para os pacientes, está a ampliação das formas de administração dos produtos, incluindo uso dermatológico, sublingual, bucal e inalatório, o que oferece mais opções para a adesão ao tratamento de pacientes em condições especiais [4].
Para acessar a cannabis medicinal no Brasil, o processo geralmente envolve:
- Prescrição Médica: É indispensável que um médico habilitado prescreva o tratamento com cannabis medicinal, indicando a necessidade e o produto adequado para o caso específico da criança.
- Autorização da Anvisa: A importação de produtos à base de cannabis requer autorização prévia da Anvisa. Embora o processo tenha se tornado mais acessível, ainda exige a apresentação de documentos e laudos médicos que justifiquem o uso. A importação individual de produtos à base de cannabis tem batido recordes no Brasil, com um crescimento contínuo no número de autorizações [5].
- Produtos Nacionais e Importados: Com as novas regulamentações, a produção nacional de cannabis medicinal para fins farmacêuticos está sendo estabelecida, o que pode facilitar o acesso e reduzir custos a longo prazo. Atualmente, muitos pacientes ainda dependem da importação de produtos.
- Associações de Pacientes: A RDC 1.014/2026 estabelece um instrumento específico para associações de pacientes sem fins lucrativos, permitindo a elas um papel importante na dispensação de produtos e no monitoramento de qualidade [4].
É importante ressaltar que o uso de produtos de cannabis com teor de THC acima de 0,2% é contraindicado para pacientes menores de 18 anos, gestantes e lactantes, conforme as regulamentações da Anvisa [6]. No entanto, a RDC 1.015/2026 atualiza o marco regulatório, incluindo pacientes com doenças debilitantes graves, como fibromialgia e lúpus, no rol de pessoas autorizadas a usar produtos com THC acima de 0,2%, o que pode abrir precedentes para futuras discussões sobre outras condições pediátricas, sempre sob rigorosa avaliação médica [4].
O mercado de cannabis medicinal no Brasil tem demonstrado um crescimento robusto, com projeções de atingir entre R$ 2 e R$ 6 bilhões nos próximos anos [7]. Esse avanço indica uma maior maturidade do setor e a expectativa de um acesso mais amplo e menos burocrático para os pacientes.
Conclusão
A jornada da cannabis medicinal para crianças com epilepsia, que começou com a inspiradora história de Charlotte Figi, evoluiu significativamente. Hoje, a ciência oferece evidências robustas sobre a eficácia e segurança do canabidiol (CBD) no manejo de epilepsias refratárias, como as síndromes de Dravet e Lennox-Gastaut. No Brasil, o cenário regulatório está em constante aprimoramento, com a Anvisa buscando facilitar o acesso e a produção de produtos à base de cannabis, refletindo a crescente demanda e a necessidade de alternativas terapêuticas para pacientes que não respondem aos tratamentos convencionais.
É fundamental que pais e cuidadores busquem orientação médica especializada para avaliar a viabilidade do tratamento com cannabis medicinal, garantindo a escolha do produto adequado, a dosagem correta e o monitoramento contínuo. A educação e a informação baseada em evidências são pilares para desmistificar o uso da cannabis e garantir que seu potencial terapêutico seja plenamente aproveitado, sempre com segurança e responsabilidade.
Se você busca mais informações ou precisa de suporte para entender como a cannabis medicinal pode ajudar, entre em contato com o Clube da Flor pelo WhatsApp. Nossa equipe está pronta para oferecer o suporte necessário e direcionar você aos recursos adequados.
Este artigo tem caráter informativo e não substitui consulta médica. O uso de cannabis medicinal no Brasil requer prescrição médica e autorização da Anvisa.
Aviso Legal: As informações contidas neste artigo têm caráter educativo e não substituem orientação médica profissional. A importação de produtos derivados de cannabis no Brasil requer prescrição médica e autorização da ANVISA, conforme a RDC 660/2022. Consulte sempre um profissional de saúde habilitado antes de iniciar qualquer tratamento.
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